A consagração de Tom Jobim como um monstro sagrado da música popular lhe deu a liberdade de lançar um trabalho sem pressões externas. O marco dessa independência é justamente “Urubu”, talvez o álbum menos comercial do compositor carioca, que custeou toda a produção, entregando-a a Warner já finalizada. Essa despreocupação com a receptividade do mercado resultou em um disco com quatro canções populares e quatro temas orquestrais. Para acompanhá-lo na banda base, convidou João Palma (bateria), Ray Armando (percussão) e Ron Carter (contrabaixo). O momento cantado começa com um dueto de vozes entre Tom e Miúcha na música “Bôto (Porpoise)”, que tem co-autoria de Jararaca. Em seguida, vem as releituras de “Lígia” (Tom Jobim) e “Correnteza” (Tom Jobim / Luiz Bonfá), além da então inédita “Ângela” (Tom Jobim). A partir daí, entra em rotação o despretensioso lado orquestral do álbum, que conta com a participação de músicos da Orquestra Sinfônica de Nova Iorque. Esse é o momento da proposta introspectiva, lírica e contemplativa. Tirando a música “Valse”, que foi composta por Paulo Jobim, seu filho, os outros três temas são de sua autoria: “Saudade do Brasil”, “Arquitetura de Morar (Architecture to Live)” e “O Homem (Man)”.
As canções têm melodias e harmonias sutis que foram muito bem interpretadas por Tom e arranjadas por Claus Orgeman, que contribuiu com uma excelente orquestração de cordas para todas as faixas, sem privilégios a nenhuma das “partes” do álbum. O que torna “Urubu” tão interessante é justamente a unicidade da obra. Era e é estranho imaginar a união de músicas populares e temas eruditos em um único registro físico, mas Jobim o fez muito bem, pois se tem uma sensação que “Urubu” não causa é estranheza. Quando se ouve a última palavra de “Ângela”, o disco continua, ao invés de começar outro. Se "sofisticado” e “sensível” são as palavras mais utilizadas para qualificar a música popular de Tom Jobim, sua experiência como concertista, por mais que não chegue ao máximo da genialidade, é só um pouco menos sensível e sofisticada, mas mantém a categoria do maestro. É um trabalho instrumental direto e coeso, sem rodeios e com um toque de brasilidade somado às referências norte-americanas. O tema mais bonito do álbum é o já citado “Saudade do Brasil”, que, em algumas edições em CD, aparece com o título “Saudade do Brazil” (com “z”, para os menos atentos), sem demais tentativas de tradução, e nem é necessário buscar justificativas.
Imagem retirada do "Google Imagens"






