20/11/2007

"Urubu", by Mr. Jobim

Quase todas as composições de sucesso que levam o grandioso nome de Antônio Carlos Jobim (1927 – 1994) têm dois títulos: um, em português; outro, em inglês. “Garota de Ipanema” é “The Girl From Ipanema”, “Corcovado” é “Quiet Night of Quiet Stars”, “Ela é Carioca” é “She’s Carioca”, “Inútil Paisagem” é “Useless Landscape”, “Águas de Março” é “Waters of March”, “Desafinado” é “Off Key” e assim por diante... Mas “Wave” não é “Onda”, é “Wave” e ponto final. Isso porque Jobim era um artista bastante requisitado nos Estados Unidos e foi lá que, entre as décadas de 60 e 70, ele gravou boa parte de sua obra, principalmente pela grande superioridade dos equipamentos de gravação dos estúdios norte-americanos em comparação à aparelhagem disponível no Brasil na época. Alguns discos chegavam às lojas brasileiras com títulos originais em inglês, a exemplo de “Antônio Carlos Jobim – The Composer of ‘Desafinado’ Plays” (Verve, 1963), “The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim – with the Nelson Riddle Orchestra” (Warner, 1965), “Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim” e “A Certain Mr. Jobim” (Warner, 1967), entre outros. Em meio a essa babel, o álbum de Jobim que realmente interessa aqui se chama “Urubu” (Warner, 1976), embora também tenha sido gravado nos States.

A consagração de Tom Jobim como um monstro sagrado da música popular lhe deu a liberdade de lançar um trabalho sem pressões externas. O marco dessa independência é justamente “Urubu”, talvez o álbum menos comercial do compositor carioca, que custeou toda a produção, entregando-a a Warner já finalizada. Essa despreocupação com a receptividade do mercado resultou em um disco com quatro canções populares e quatro temas orquestrais. Para acompanhá-lo na banda base, convidou João Palma (bateria), Ray Armando (percussão) e Ron Carter (contrabaixo). O momento cantado começa com um dueto de vozes entre Tom e Miúcha na música “Bôto (Porpoise)”, que tem co-autoria de Jararaca. Em seguida, vem as releituras de “Lígia” (Tom Jobim) e “Correnteza” (Tom Jobim / Luiz Bonfá), além da então inédita “Ângela” (Tom Jobim). A partir daí, entra em rotação o despretensioso lado orquestral do álbum, que conta com a participação de músicos da Orquestra Sinfônica de Nova Iorque. Esse é o momento da proposta introspectiva, lírica e contemplativa. Tirando a música “Valse”, que foi composta por Paulo Jobim, seu filho, os outros três temas são de sua autoria: “Saudade do Brasil”, “Arquitetura de Morar (Architecture to Live)” e “O Homem (Man)”.

As canções têm melodias e harmonias sutis que foram muito bem interpretadas por Tom e arranjadas por Claus Orgeman, que contribuiu com uma excelente orquestração de cordas para todas as faixas, sem privilégios a nenhuma das “partes” do álbum. O que torna “Urubu” tão interessante é justamente a unicidade da obra. Era e é estranho imaginar a união de músicas populares e temas eruditos em um único registro físico, mas Jobim o fez muito bem, pois se tem uma sensação que “Urubu” não causa é estranheza. Quando se ouve a última palavra de “Ângela”, o disco continua, ao invés de começar outro. Se "sofisticado” e “sensível” são as palavras mais utilizadas para qualificar a música popular de Tom Jobim, sua experiência como concertista, por mais que não chegue ao máximo da genialidade, é só um pouco menos sensível e sofisticada, mas mantém a categoria do maestro. É um trabalho instrumental direto e coeso, sem rodeios e com um toque de brasilidade somado às referências norte-americanas. O tema mais bonito do álbum é o já citado “Saudade do Brasil”, que, em algumas edições em CD, aparece com o título “Saudade do Brazil” (com “z”, para os menos atentos), sem demais tentativas de tradução, e nem é necessário buscar justificativas.

Imagem retirada do "Google Imagens"

14/11/2007

Ouvirvendo

Esse clipe foi o vencedor da categoria Clipe do Ano do VMB 2007. O nome da música é "Na Sua Estante", de Pitty, e a direção da animação é de Sérgio Filho, que, na verdade, foi o gancho da postagem.

08/11/2007

O Gram "finale"

Imagem retirada do "Google Imagens"

Alguém lembra da banda de rock-pop paulistana Gram, aquela que estourou entre 2003 e 2004 na MTV com o videoclipe de “Você Pode Ir na Janela”, conhecido como o “clipe do gatinho”, que tinha um roteiro de animação bem elaborado, com desenhos bastante carismáticos? O vocalista do grupo, Sérgio Filho, que também foi o autor das animações, recebeu uma proposta da agência DM9, uma gigante da publicidade, e resolveu largar a música. Antes de Sérgio, o guitarrista Luiz Ribalta já tinha saído da banda e, com o fim do Gram, os outros três integrantes – Fernando Falvo (bateria), Marcello Pagotto (baixo) e Marco Loschiavo (guitarra) – anunciaram que continuarão juntos em outro projeto. Mas o que importa agora é o último disco lançado pelo grupo: “Seu Minuto, Meu Segundo” (Deckdisc, 2006), que passa longe da excelência do “Gram” (Deckdisc, 2004), primeiro trabalho da banda.

A canção inicial do álbum se chama “O Rei do Sol”, uma fábula que narra a história de um rei que vendeu o amor, comprou o mundo e compraria o sol, se não fosse assassinado por um soldado. A historinha não funciona: talvez porque foi mal contada; talvez porque o enredo não seja interessante; certamente pelos dois motivos. No que concerne às letras das onze músicas restantes do disco, a irregularidade é muito grande: mesmo quando a canção agrada há alguns versos incômodos, um pouco infantis. Se existem pretensões metafóricas maiores, a escolha das palavras foi muito infeliz, pois, muitas vezes, nem comunicam nem emocionam. Musicalmente, “Seu Minuto, Meu Segundo” é um pouco mais “alternativo” do que o “Gram”. As fórmulas de sucesso são menos repetidas e os arranjos são bem variados e adequadamente encaixados. São facilmente percebidas as influências de Radiohead, Coldplay e Weezer, principalmente pelos moldes rítmicos e pelos timbres e recursos técnicos utilizados nas guitarras. As melodias das músicas são boas, porém, devido à estreita relação com as letras que são cantadas, são ofuscadas em alguns momentos.

“Seu Minuto, Meu Segundo” não é o disco que se podia esperar da banda que compôs “Moonshine” e “Faça Alguma Coisa”, melhores músicas do primeiro álbum, mas é um trabalho aceitável. Se alguma gravadora resolver lançar uma coletânea do Gram, provavelmente do “Seu Minuto...” só entrarão “Parte de Mim”, “Melhor Assim” (que já tinha sido lançada no DVD “MTV Apresenta Gram”, de 2005), “Vivo de Novo” e “Me Trai Comigo” mais todas as dez músicas do CD homônimo. Em suma, o Gram durou pouco tempo: surpreendeu muito com o disco de 2004, gravou um bom DVD ao vivo em 2005, lançou um álbum mediano em setembro de 2006 e, em 2007, anunciou o fim da banda. Mais difícil que decidir se o gatinho morre ou não no final do videoclipe é concluir se o que deve ficar é a lembrança da excelente banda do disco inicial ou de mais um grupo de bons músicos que perderam um pouco da inspiração de outrora.

Imagem retirada do "Blog do Cena Rock"

Clique aqui para ver o videoclipe de "Você Pode Ir na Janela"

05/11/2007

Ouvirvendo

Este vídeo é um trecho do programa Ensaio, da TV Cultura, com Elomar tocando e cantando "O Violeiro", canção registrada em seu primeiro disco, "...Das Barrancas do Rio Gavião" (Phonogram, 1973).

30/10/2007

O Samba de Maria Rita

Dessa vez, Marcelo Camelo ficou de fora. Se, nos dois primeiros discos de sua carreira, Maria Rita firmou uma forte parceria com o músico da banda Los Hermanos, gravando três canções inéditas (“Cara Valente”, “Santa Chuva” e “Despedida”) e outras duas (“Veja Bem Meu Bem” e “Casa Pré-Fabricada”) já registradas pelo grupo de Camelo, no terceiro a história não se repetiu. O álbum “Samba Meu” (Warner Music, 2007) é inteiramente dedicado ao samba e é quase todo formado por composições inéditas. Entre os nomes, o que mais se sobressai é o do sambista barbudo Arlindo Cruz, que é co-autor de seis das quatorze faixas do CD.

A música de abertura, que intitula o disco, traz em sua poesia um pedido pouco humilde de permissão aos sambistas de carteirinha: “Meu samba defendi com alegria / Deixe que a noite vadia / Vai saber lhe coroar / Deixo entregue aos bambas de verdade / Que estão nos morros da cidade / Peço a benção pra passar”. Pouca instrumentação - apenas prato, violão, cuíca, contrabaixo e uma discretíssima bateria - para que os versos de Rodrigo Bittencourt tenham o impacto pretendido. A segunda música é uma regravação de “O Homem Falou”, do mestre Gonzaguinha (1945 – 1991), onde a seqüência inicial dos versos “Pode chegar que a festa vai é começar agora / Pode chegar quem quiser / Deixe a tristeza pra lá” anuncia a fuga do intimismo dos discos anteriores e da primeira faixa: cavaquinho, pandeiro, tamborim, agogô, caixa e companhia limitada, além do saudoso coro de vozes da Velha Guarda da Mangueira, acompanham a interpretação de Maria Rita.

O repertório foi muito bem escolhido, passeando pelo choro-canção, pelo samba-jazz e pelo samba de raiz, e foi competentemente arranjado por Jota Moraes - principalmente no que diz respeito ao espaço dado aos instrumentos de percussão, que são muitos e têm funções muito bem determinadas. A voz de Maria Rita continua linda e sua atuação foi bem sucedida na proposta do disco: um samba dissonante, daquele que, aos mais afinados com os limiares das questões de gênero, certamente ficará na seção “MPB” de qualquer loja. Não que o samba não seja popular, mas sim porque “Samba Meu” não tem muita ligação com suor ou cerveja.

Imagem retirada do "Google Imagens"

29/10/2007

Ouvirvendo

A partir de hoje, haverá um vídeo a cada semana no Arte de Ouvir. Certamente, todos serão tirados do youtube e terão formatos diversos, com conteúdos ligados à música nacional: clipes, entrevistas, trechos de apresentações de artistas nacionais e etc. Para começar, um videoclipe de "Blunt of Judah", da banda pernambucana Nação Zumbi.

16/10/2007

"Fernando Pessoa por Paulo Autran"

Abrir uma exceção para tratar de um outro assunto não ferirá ninguém. Esqueçamos a música e pensemos em um outro registro sonoro: a poesia falada, ou melhor, falada e gravada. O disco “Fernando Pessoa por Paulo Autran” (EG Produções, 2005)¹, de Paulo Autran (1922 – 2007), é justa e simplesmente um apanhado de textos poéticos de Fernando Pessoa (1888 – 1935) na interpretação do “Senhor dos Palcos”. Os textos selecionados são "cartas marcadas" do acervo poético em língua portuguesa, a exemplo de "Vem sentar-te comigo, Lídia", "Autopsicografia", "Cruz na porta da tabacaria" e "Grandes são os desertos", entre outros. No total, são 17 faixas de poesias recitadas que, por alguns motivos, trazem uma longa viagem no tempo.

Em primeiro lugar, porque a oralidade secular da aura poética é absolutamente resgatada e, por mais que seja possível ouvir o mesmo trecho de uma mesma poesia e do mesmo modo um milhão de vezes, algo praticamente inconcebível no tempo dos poetas oradores, o mistério continua lá, impregnado no próprio registro. Isso ocorre porque Autran, mesmo pontuando, flutuando, cansando, calando e etc., possibilitou que a sua interpretação fosse apenas mais uma e, principalmente, sua; ou seja, a dramaticidade do ator carioca não “mastigou” a beleza da poesia de Pessoa. É lógico que a criação de imagens precisa seguir a métrica criada pela interpretação do registro e a ausência do corpo, sem qualquer trocadilho indecoroso, pode deixar os menos atentos com os olhos perdidos, já que todos os gestos estão apenas na voz.

O segundo fator da viagem no tempo tem relação direta com facilidade de desvio de atenção. A densidade do disco requer uma concentração muito grande. Não dá para arrumar o quarto enquanto o CD toca. Para cada vez que se aperta o botão “pausar”, é necessário ouvir a faixa novamente e vale enfatizar que, no trabalho de Paulo Autran, os clássicos de Fernando Pessoa “Ode Triunfal” e “O Guardador de Rebanhos - VIII”, por exemplo, duram cerca de 11 e 7 minutos, respectivamente. Para os menos ligados à poesia, seja falada ou escrita, a probabilidade que o disco tem de ser realmente ouvido por inteiro é mínima. A saída é apreciá-lo aos poucos: três faixas em um dia, outras duas dias depois e assim, por um bem matemático, a última faixa chega. Já para os mais apaixonados pela arte de versar, seria melhor que este texto terminasse no parágrafo anterior.

¹"Coleção 'Poesia Falada' - Vol. 7"

Imagem retirada do "Google Imagens"

18/09/2007

"À Flor da Pele", com Ney Matogrosso e Rafael Rabello

A tarefa de regravar composições de nomes desconhecidos, como Bororó, Jayme Florence, Augusto Mesquita, Angelino de Oliveira, Almeida Passos e Adelino Moreira, e uni-las em um único disco daria mais autoridade a quaisquer que fossem os intérpretes (sem demérito aos compositores e, muito menos, às suas criações). Isso porque, geralmente, as letras são menos conhecidas; algumas até soam como inéditas e por aí vai... Mas, no álbum “À Flor da Pele” (Som Livre, 1990), de Ney Matogrosso e Rafael Rabello (1962 - 1995), ainda se encontram clássicos de Lamartine Babo, Ary Barroso, Noel Rosa, Cartola, Herivelto Martins, Arnaldo Baptista, Rita Lee, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Hermínio Bello de Carvalho e Heitor Villa-Lobos. Se os pontos de referência aumentam, o cuidado com o que se faz com cada música também cresce. Porém, o diferencial do álbum está principalmente nos seus executores e nas suas execuções. Sem qualquer indício de desmerecimento, o histórico de cada canção e a importância de seus compositores ficam num plano secundário da obra. Primeiro, pelo que foi feito; segundo, por quem o fez.

No disco, a maestria técnica e a sensibilidade interpretativa do violonista se fundem com a beleza e o teatro da voz de Ney. Cada faixa traz uma variação impressionante de arranjos do violão 7 cordas sob as principais influências de Rafael: o flamenco se mistura ao chorinho e à música erudita, dando às melodias originais das músicas uma harmonização variada. Mesmo quando o violão entra nos solos fenomenais de contraposição ou dueto com linhas melódicas da voz, a sincronia não se perde e a impecável interpretação de Ney Matogrosso continua facilitando o entendimento poético das canções - do jeitinho dele, obviamente - e carregando o álbum de tristeza, embora a escolha do repertório tenha sido muito feliz: um autêntico passeio sobre a vasta musicalidade brasileira (exceto o bolero “Vereda Tropical”, de Gonzago Curiel).

As releituras registradas em “À Flor da Pele” e a constância da performance dos dois artistas transportam todas as canções gravadas a um mesmo patamar estético. “Modinha”, “Retrato em Branco e Preto”, “Molambo”, “As Rosas Não Falam”, “Na Baixa do Sapateiro”, “Da Cor do Pecado”, “No Rancho Fundo”, “Balada do Louco”, “Tristeza do Jeca” e “Negue”, dentre outras, emprestaram a Ney Matogrosso e a Rafael Rabello uma gama enorme de possibilidades, revertidas justamente em uma obra única, sem que faixa alguma fosse elaborada com privilégios ou com intenções de transformá-la na música de trabalho do CD. O que Ney e Rabello fizeram foi distribuir beleza por cada compasso do disco, dificultando o caminho da comparação estética entre as composições que interpretaram. Aos que pretendem traçá-lo, o ideal é recorrer a outras gravações de cada canção.

Imagem retirada do "Google Imagens"

05/09/2007

"De Uns Tempos Pra Cá": algo foi esquecido

Mesmo que não se pretenda discutir a autoria do disco “De Uns Tempos Pra Cá” (Biscoito Fino, 2005), lançado com o nome do cantor e compositor Chico César, é impossível não notar a enorme parcela de contribuição do Quinteto da Paraíba (maior representante musical do Movimento Armorial, que visa o diálogo entre a produção artística nordestina e o cancioneiro medieval) na totalidade da obra: uma proposta nitidamente camerística.

Exceto a versão de “Autumn Leaves” (Joseph Kosma / Johnny Mercer) e as releituras de “Cálice” (Chico Buarque / Gilberto Gil), que foi muito bem adequada às pretensões do CD, e “A Nível De” (João Bosco / Aldir Blanc), o álbum é majoritariamente autoral e reúne canções compostas pelo paraibano desde a década de 80, a exemplo de “Utopia” e “Por Causa de um Ingresso do Festival Matou Roqueira de 15 Anos”, que conta com a participação de Elba Ramalho.

Em quase todas as músicas do disco, as letras, embora distantes da mediocridade, são facilmente acessíveis e as complexidades melódicas do canto apenas abrem as portas para a erudição do trabalho de Chico César. O que realmente assegura o forte teor erudito da obra são os arranjos muito bem sincronizados do Quinteto da Paraíba: o baixo acústico (Xisto Medeiros) executa a função de cama rítmica; o violoncelo (Nelson Videla) e os primeiro (Yerko Tabilo) e segundo (Ronedik Dantas) violinos dividem os solos instrumentais e fazem o “pano de fundo” melódico da orquestração nos contra-cantos; e a viola (Samuel Espinoza) oscila entre momentos de base harmônica e duetos com a voz de Chico.

De Uns Tempos Pra Cá” é um trabalho bastante intenso. O sofrimento da interpretação vocal de Chico César exala um tom de retirante nordestino e a formatação instrumental das canções convida o ouvinte a respirar um ar mais limpo. Só não dá para entender por qual razão esqueceram de colocar o nome do Quinteto da Paraíba na capa.

Imagem retirada do "Google Imagens"

28/08/2007

"Chico Buarque - Primeiras Composições"

Quando se pensa em Chico Buarque, o mais comum é exaltá-lo ou, minimamente, reconhecê-lo como o letrista das inteligentes e irônicas canções de cunho político ou como o compositor de alma mais feminina da MPB. É óbvio que sem um encaixe eficaz entre suas letras e suas músicas, no que concerne às harmonias, melodias e ritmos, Chico não representaria tanto para o cancioneiro brasileiro, ele seria apenas um poeta, mas esses aspectos musicais da obra do compositor não são lembrados de um modo tão voluntário. O grande mérito do disco “Chico Buarque – Primeiras Composições” (Trama, 2002) é enfatizar as belas melodias de algumas canções da fase inicial da carreira de Buarque. Mas Chico não toca uma nota sequer no CD. O responsável pela obra é Paulinho Nogueira (1929 – 2003), um dos violonistas mais famosos da “Era da Bossa”, inventor da Craviola (instrumento de 12 cordas que mistura as sonoridades do Cravo e da Viola) e compositor das “Bachianinhas” e do sucesso “Menina”, canção que estourou na década de 70.

O álbum é todo instrumental e conta com a participação do percussionista João Parahyba, do Trio Mocotó, nos clássicos “A Banda”, “Roda Viva”, “Noite dos Mascarados” e “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, além de duetos muito sutis entre o violão de Paulinho e a flauta do saxofonista e flautista paulistano Teco Cardoso nas faixas “Joana Francesa” e “Olhos nos Olhos”. Nas demais canções gravadas, os arranjos simples e diretos do violão destacam a leveza das melodias e as especificidades harmônicas que sustentam as letras de Chico Buarque.

Para os apreciadores da obra do compositor carioca, é difícil ouvir as faixas do CD e não “cantá-las” em silêncio. O que não quer dizer que, em “Chico Buarque – Primeiras Composições”, Paulinho Nogueira tenha trabalhado em vão, pois a naturalidade com a qual as letras das canções chegam até a mente do ouvinte sem que se sinta algum desejo de abrir a boca e cantar é a prova de que o disco teve êxito. O violonista foi econômico em todas as execuções do álbum e não mostrou toda a sua técnica, mas esbanjou a maturidade e o conhecimento necessários para se fazer uma homenagem sincera a um dos grandes artistas da música popular brasileira, sem que o seu nome ficasse em segundo plano na obra.

Imagem retirada do "Google Imagens"

22/08/2007

O Que Significa "Dwitza"?

“Ia lá ôrôrô, arariíi iurôu, irerêêê, ararururu irurá irônoum”. Nem é celebração do Candomblé, nem é referência ao Axé Music. Mas é bastante semelhante ao canto vocal que se ouve no álbum “Dwitza” (Universal Music, 2002), do cantor, compositor, multiinstrumentista, arranjador, pesquisador e sobrinho de Tim Maia. O disco, que tem um repertório basicamente instrumental (com duas faixas quebrando a regra), merece destaque por representar, sem titubeios, uma relevante mudança na carreira de Ed Motta.

É o momento em que o cantor pop, embora sempre sofisticado tecnicamente, de “Fora da Lei” (“Manual Prático para Festas, Bailes e Afins”, de 1997) e “Colombina” (“As Segundas Intenções do Manual Prático”, de 2000), fica para trás e cede lugar ao criador experimental, ao estudioso da musicalidade negra - principalmente a norte-americana. O resultado é uma mistura de samba-jazz, musicais da Broadway, soul, funk, rock progressivo, batucada e até valsa, dentre mais uma pitada de diversas influências.

Logo na primeira faixa do disco, “Um Dom pra Salvador” (homenagem ao pianista brasileiro Dom Salvador), os diálogos entre os metais e os vocalises jazzísticos de Ed Motta e os arranjos com solos secundários que completam os espaços vazios da melodia temática demonstram qual a cara do CD: uma obra extremamente experimental e de difícil audição, tanto para o público acostumado com a lógica narrativa da letra, quanto para os apreciadores da música instrumental. Em uma das últimas faixas do álbum, o samba-jazz “Cervejamento Total”, por exemplo, o tema melódico é curto e repetitivo e a música só não se torna completamente circular pelo uso adequado dos recursos rítmicos e da variação de destaque para cada timbre no decorrer do tempo. O miolo do disco segue assim: faixas que chegam a cansar qualquer mortal, dando a impressão de que a proposta é criar uma oficina de formação do ouvinte – isso é jazz com batucada...isso é samba com funk.... – e outras que não carecem de um ouvido muito treinado e soam mais verdadeiras – são as que salvam o CD.

Mesmo que não tenha alcançado grande receptividade, o êxito de “Dwitza” é o registro de que o conhecimento musical de Ed Motta aliou-se à sua capacidade de criação e, mesmo com os excessos e preciosismos, mostra que, com um pouco de liberdade, ele soube “experimentar” sua vasta sapiência rítmica, harmônica e melódica, além de um intocável domínio e afinação vocais. Mas vale ressaltar que sua aprimorada técnica de canto é muito mais esbanjada em seus trabalhos de cunho mais popular, onde, muitas vezes, o silêncio que toda música requer se sente agredido pelos vocalises intensos entre os versos da letra. Em “Dwitza”, a beleza está na harmonia encontrada para unir sonoridades tão diversas. A voz de Ed Motta é apenas mais um elemento do conjunto e, ironicamente, é neste álbum que sua marca registrada se firma como um instrumento de uma linguagem não tão previsível: o “Edmottês".

Imagem retirada do "Google Imagens"