30/10/2007

O Samba de Maria Rita

Dessa vez, Marcelo Camelo ficou de fora. Se, nos dois primeiros discos de sua carreira, Maria Rita firmou uma forte parceria com o músico da banda Los Hermanos, gravando três canções inéditas (“Cara Valente”, “Santa Chuva” e “Despedida”) e outras duas (“Veja Bem Meu Bem” e “Casa Pré-Fabricada”) já registradas pelo grupo de Camelo, no terceiro a história não se repetiu. O álbum “Samba Meu” (Warner Music, 2007) é inteiramente dedicado ao samba e é quase todo formado por composições inéditas. Entre os nomes, o que mais se sobressai é o do sambista barbudo Arlindo Cruz, que é co-autor de seis das quatorze faixas do CD.

A música de abertura, que intitula o disco, traz em sua poesia um pedido pouco humilde de permissão aos sambistas de carteirinha: “Meu samba defendi com alegria / Deixe que a noite vadia / Vai saber lhe coroar / Deixo entregue aos bambas de verdade / Que estão nos morros da cidade / Peço a benção pra passar”. Pouca instrumentação - apenas prato, violão, cuíca, contrabaixo e uma discretíssima bateria - para que os versos de Rodrigo Bittencourt tenham o impacto pretendido. A segunda música é uma regravação de “O Homem Falou”, do mestre Gonzaguinha (1945 – 1991), onde a seqüência inicial dos versos “Pode chegar que a festa vai é começar agora / Pode chegar quem quiser / Deixe a tristeza pra lá” anuncia a fuga do intimismo dos discos anteriores e da primeira faixa: cavaquinho, pandeiro, tamborim, agogô, caixa e companhia limitada, além do saudoso coro de vozes da Velha Guarda da Mangueira, acompanham a interpretação de Maria Rita.

O repertório foi muito bem escolhido, passeando pelo choro-canção, pelo samba-jazz e pelo samba de raiz, e foi competentemente arranjado por Jota Moraes - principalmente no que diz respeito ao espaço dado aos instrumentos de percussão, que são muitos e têm funções muito bem determinadas. A voz de Maria Rita continua linda e sua atuação foi bem sucedida na proposta do disco: um samba dissonante, daquele que, aos mais afinados com os limiares das questões de gênero, certamente ficará na seção “MPB” de qualquer loja. Não que o samba não seja popular, mas sim porque “Samba Meu” não tem muita ligação com suor ou cerveja.

Imagem retirada do "Google Imagens"

5 comentários:

Pedro Paula disse...

Kalu, eu ainda não ouvi o cd, mas vi algumas músicas no jô. Ela é linda, a voz dela também, a banda é excelente, as músicas têm letras e melodias boas... Mas não empolga muito. Talvez seja um pouco sofisticado, excessos de vibrato, de melodias afinadas, sei lá, tem alguma coisa naquele samba que não dá muita vontade de sambar.

Thiago Kalu disse...

Pedro,

é justamente isso: o samba que não pode ser ligado ao suor ou à cerveja (sem nenhuma apologia ao álcool).É realmente sofisticado. A nova terminologia que ronda por aí do "samba-mpb".

Abraços!

Pedro Paula disse...

Kalu, não sei se associou o nome à pessoa, mas quem te escreve aqui é o seu parceiro de composições Pedro Belo! coloquei um link no meu blog pro arte de ouvir e estou esperando ansiosamente seu novo post! Falou, meu velho!

Thiago Kalu disse...

Como eu não reconheceria seu nome? Realmente fui muito formal(rs!). Espero que não tenha alcançado a frieza! (mais rs!)Obrigado pela linkagem!

Um forte abraço, meu rei!

João Paulo disse...

é realmente um samba que não dá vontade de sambar!